Implante que devolve parte da visão a cegos é aprovado na Europa - Resenha crítica - 12min Originals
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Implante que devolve parte da visão a cegos é aprovado na Europa - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Perder a visão central é deixar de enxergar justamente o que está bem na frente dos olhos. A pessoa continua percebendo contornos pelos lados, mas não consegue ler uma carta, reconhecer um rosto ou distinguir detalhes. Sheila Irvine, britânica de 70 anos registrada como cega, descreve a própria vista como se tivesse dois discos pretos, um em cada olho.

A causa mais comum disso é a degeneração macular relacionada à idade, uma das principais razões de perda de visão a partir dos 50 anos. Na forma avançada, chamada atrofia geográfica, as células que captam luz no centro da retina morrem. Ao menos 5 milhões de pessoas no mundo convivem com essa condição, e nada do que existe hoje recupera o que se perdeu: os medicamentos disponíveis apenas retardam a progressão da doença.

É nesse ponto que entra a notícia. Um chip do tamanho aproximado da cabeça de um alfinete, implantado sob a retina, recebeu em julho de 2026 a marcação CE, a certificação que autoriza a venda de dispositivos médicos nos países europeus. Segundo a fabricante, a americana Science Corporation, a autorização vale para 30 países. Sheila é uma das pacientes que receberam o implante durante o estudo clínico, no hospital Moorfields, em Londres. Hoje ela diz que lê correspondências, livros e faz palavras cruzadas.

Como um chip substitui as células que morreram

O implante não funciona sozinho. Ele trabalha junto com um par de óculos que tem uma câmera embutida.

A câmera registra o que está à frente do paciente e transforma essa imagem em um feixe de luz infravermelha, que o olho humano não enxerga. Esse feixe é projetado sobre o chip, posicionado embaixo da região central da retina. O chip converte a luz em pequenos sinais elétricos e estimula as células da retina que ainda funcionam, que então levam a informação ao cérebro pelo nervo óptico. Na prática, o dispositivo faz o trabalho das células que a doença matou.

O implante não usa fios nem bateria: ele se carrega com a própria luz projetada pelos óculos. Há também uma função de ampliação, acionada pelo paciente, que aumenta o tamanho das letras.

Por isso o tratamento só serve para um tipo específico de cegueira. Se a retina inteira estiver destruída, ou se o nervo óptico não funcionar, não há o que estimular. "Se todas as células da retina estão mortas, o chip não funciona", disse à DW Frank Holz, chefe do departamento de oftalmologia da Universidade de Bonn e um dos líderes do estudo.

Duas tentativas que terminaram em falência

A ideia não é nova, e as tentativas anteriores não sobreviveram ao mercado.

O pioneiro foi o Argus II, da americana Second Sight, com venda liberada na Europa em 2011 e aprovação da FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos, em 2013. Era indicado para a retinose pigmentar, uma doença genética rara, e custava cerca de 150 mil dólares. Em 2016, segundo a própria fabricante, 180 pessoas no mundo viviam com o dispositivo. Ele oferecia uma imagem de cerca de 36 pontos luminosos, suficiente para perceber vultos, portas e contrastes, mas não formas em detalhe.

O Argus II foi descontinuado em 2019. Depois disso, a empresa deixou de dar assistência técnica aos aparelhos já implantados, e pacientes passaram a conviver com um equipamento dentro do corpo que não pode ser consertado. "Desde que nada dê errado, estou bem", disse Terry Byland, que usa os implantes nos dois olhos, ao site IEEE Spectrum. No mesmo ano, a alemã Retina Implant AG, que fabricava outro modelo, encerrou as atividades.

O chip que acaba de ser aprovado quase teve o mesmo fim. Ele foi desenvolvido pela francesa Pixium Vision, que faliu em 2024, no meio do estudo clínico. A Science Corporation comprou os ativos por cerca de 4 milhões de euros e assumiu a produção. "Lembro vividamente daqueles dias em que tudo estava prestes a ruir justamente quando o estudo estava quase concluído", contou à DW José-Alain Sahel, um dos pesquisadores responsáveis.

O que os testes mostraram

O estudo que sustentou a aprovação foi publicado no New England Journal of Medicine em outubro de 2025. Participaram 38 pacientes com atrofia geográfica, em cinco países; 32 completaram o acompanhamento de um ano.

Desses 32, 27 voltaram a ler usando a visão central. O ganho médio foi de 25 letras na tabela usada em exames oftalmológicos, o equivalente a cinco linhas. Oito em cada dez participantes tiveram melhora considerada significativa, e o implante pôde ser colocado sob a área danificada sem prejudicar a visão lateral que restava. Cinco pessoas não registraram nenhum benefício.

Houve efeitos adversos. Dezenove participantes tiveram complicações, a maioria aumento da pressão dentro do olho, pequenas hemorragias e lesões na retina, concentradas nas primeiras semanas após a cirurgia. Segundo os autores, quase todas foram resolvidas em até dois meses, sem perda total de visão.

A promessa maior da Neuralink, ainda sem teste em humanos

Enquanto isso, outra abordagem circula com muito mais visibilidade: o Blindsight, da Neuralink, de Elon Musk. Ela não passa pelo olho. A proposta é estimular diretamente a região do cérebro que processa a visão, o que, em tese, atenderia pessoas que perderam os olhos ou o nervo óptico.

Em setembro de 2024, a FDA concedeu ao Blindsight a designação de "dispositivo inovador", um programa voluntário que acelera a análise de tecnologias para condições graves. Questionada pelo Estadão, a agência afirmou que a designação não garante segurança nem eficácia e que o produto não pode ser comercializado. Musk escreveu no X que o implante permitirá que até quem nasceu cego enxergue, e que a visão poderá um dia superar a natural.

Cientistas contestam a segunda parte. Um estudo publicado na revista Scientific Reports, feito por pesquisadores da Universidade de Washington, simulou o funcionamento desse tipo de implante e concluiu que a imagem resultante seria muito mais borrada do que a comparação com pixels de tela sugere. "Engenheiros frequentemente pensam em eletrodos como produtores de pixels. Mas não é assim que a biologia funciona", afirmou Ione Fine, professora de psicologia e autora principal. Segundo ela, prometer visão melhor que a humana a pessoas que perderam a vista tarde na vida "é algo perigoso de se dizer".

Em junho de 2025, a Neuralink divulgou os primeiros resultados do Blindsight: um macaco com o implante moveu os olhos na direção de um estímulo que não existia fisicamente, em cerca de dois terços das tentativas. O dispositivo segue em fase preliminar.

O que o implante não faz

Não é cura. A visão devolvida é em preto e branco, com campo pequeno e sem cor. Max Hodak, fundador da Science Corporation e ex-presidente da Neuralink, comparou a experiência a olhar por um canudo: uma mancha nítida no centro, onde cabem algumas letras por vez.

A cirurgia também não é simples. "Trata-se de uma cirurgia muito complexa, que requer uma boa capacitação", disse Sahel à DW. E o aparelho não funciona sozinho: o programa de reabilitação, em que o paciente aprende a interpretar os sinais, leva cerca de doze meses, com visitas repetidas à clínica.

Há ainda os limites do próprio estudo. Foi um número reduzido de participantes, acompanhados por um ano, sem grupo de comparação. Ricardo Japiassu, diretor da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, afirma que ainda é preciso "confirmar a durabilidade dos resultados, a segurança em longo prazo e o desempenho em um número maior de pacientes".

O que fazer com essa informação

Quatro coisas definem se isso sai do grupo pequeno de pacientes europeus.

A primeira é o preço e quem paga. A empresa estima que cada dispositivo custe centenas de milhares de dólares e negocia reembolso com sistemas de saúde e operadoras europeias. O valor final por país ainda não foi definido, e sem cobertura pública o tratamento fica restrito a quem pode pagar.

A segunda é a aprovação nos Estados Unidos. Lá o implante tem apenas duas designações que aceleram a análise da FDA, o que não equivale a liberação de venda.

A terceira é o alcance da tecnologia. Em maio, um paciente com doença de Stargardt, outra condição que destrói a visão central, recebeu o implante em um hospital de Sydney, na Austrália, dentro de um estudo. Segundo a empresa, na primeira sessão de reabilitação ele enxergou uma letra e, na segunda, leu uma palavra.

A quarta é o teste em pessoas do Blindsight, que mostrará se a promessa pública de Musk se sustenta fora dos macacos.

No Brasil não há previsão de chegada. Seria necessária aprovação da Anvisa e, depois, decisão sobre incorporação aos sistemas de saúde. Se alguém próximo a você convive com perda de visão, você sabe dizer se o caso é de células da retina que morreram ou de nervo óptico danificado?

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